01/10/2014

Desolação

depois do nosso século
nenhuma videira crescerá na morte
as flautas incendiadas
delicada beleza

últimos jardineiros
estando eles cansados de suportar
o pesado fardo do lírio
partirão em busca de refúgio

deles lembraremos com tristeza
quando ouvirmos tocar
outra sonata
então será o tempo do inverno

decerto é nossa última paisagem
nas colinas, nos montes
os pastores perdidos
as mãos suplicando balanços

ovelhas exiladas
desgarradas dos pastos eternos
sozinhas vagando
pelos enormes bosques escuros

quando descer o anjo
soando a trombeta
tentando recompor os córregos
não saberemos crer nele

demasiado distantes das fontes
imersos no deserto
a vida aos poucos esvaída
tantos monturos

é esse nosso último salmo
costurado em laranjas apodrecidas
recitado por monges embriagados
telúrica perspectiva do reino

onde ficou a nascente?

dela lembraremos
com a mesma saudade dos outros
aqueles que choraram
junto aos rios da babilônia

essa é a nossa foz
como esquecer o leito percorrido
até alcançar este mar?

ainda não estamos preparados
cedo chegamos ao oceano
canoas frágeis

insistimos em voltar as corredeiras
sabemos ser impossível

é essa a nossa sina
agora só temos as nossas mãos
nenhum caminho
mesmo os remos foram perdidos

ainda nos cabe a tarefa
de inventar por dentro do afogamento
outra rota possível

trazemos a memória da fonte
ainda o estranho desejo

regressar ao principio do rio.

Sândrio Cândido

15/09/2014

Ailton

foto: Ailton Volpato
 
 
 


ouve- assim cantam as aves, é setembro
escrever para habitar o vazio
antes de tudo, o mesmo, este que nos habita
sem nenhuma permissão 
o tempo transforma todos os outonos
amadurece a polpa da vida-
as vezes nos falta a chuva
aos poucos apodrecemos junto as videiras
a música de deus doma o nosso corpo
queda de joelhos a criança em nós afogado 
aprendemos cedo o tato da palavra
frágil instrumento
nela assopramos levemente
tentando romper a noite
galgar os degraus ao parto da claridade
acontecer por dentro do azul,
a palavra rasgada
trabalhada pelas mãos em comunhão
regando a rosa-
fizemos de nós peregrinos
talvez nem isto sejamos no amanhã
difícil desvelar a alma
outro é o oficio do século
é tempo de possuir um corpo
nunca foi tão forte isto
temos um corpo meu deus- por que?
algumas perguntas devem cessar
sem obter nenhuma resposta
estamos tateando o mistério do espírito
pairando sobre as águas
no eterno gênesis- devir de Heráclito-
apodreceu há muito a mesa do banquete
ficamos a espera das migalhas
lavando com poemas os pés do mensageiro
é sobre isto- fazer o reboco
e nunca cobrir completamente a cratera
o poema é inútil para dizer o silêncio
é esse o nosso destino
desde a nossa primeira solidão
é este o nosso único movimento
capaz de nos fazer comungar da dança.

Sândrio Cândido



19/07/2014

Paisagem inabitável

Não aprendi dizer adeus, diz uma canção da minha infância, daquelas que fazem parte da memória sentimental. Lembro-me do papai com o seu radinho de pilha, em um Cansanção ainda sem luz elétrica, ao redor da lamparina cheirando a querosene e aquela voz irritante cantando. Só a frase me ficou, de toda a música, não gosto mais da dupla, mas a memória sentimental não escolhe pelos nossos gostos, ela parece ter vida própria.
 
É verdade! Eu não aprendi como dizer adeus, toda vez é a mesma coisa; o silêncio de um abraço e o aperto nos olhos, como se todo um rio estivesse contido nas pálpebras. O problema não é tanto o adeus, mas o significado dele. Como esquecer as manhãs da minha infância, quando eu e minhas irmãs saímos em busca das mangabas e dos pequis. Impossível esquecer os nossos jogos de futebol, quando a poeira era mais intensa do que os gols. É do mesmo jeito impossível esquecer as partidas de queimada no ponto de ônibus. Tudo isto é tão bobo, se fosse uma fogueira, seria apenas as brasas, entretanto, é isto o que aquece as minhas noites. 
 
Hoje há poeira ainda, mas não é mais de uma partida de futebol, é o jogo da vida e neste eu desconfio que esteja perdendo. A vida não perde e nem empata, ele quer sempre a vitória. É isto o que dói ao dizer Adeus, saber que tudo é breve e acaba um dia. O que dói é esse buraco aberto no peito. Para lá eu jogo tudo aquilo que não posso mais acessar, mas que fica impregnado em minha pele. A vida é uma coleção de retratos jamais revelados. A fotografia interior não cabe no papel. 

Não aprenderei dizer Adeus, mas saberei: Aquilo vivenciado por mim é de uma beleza tão grande que vale o sacrifício. Talvez eu perca mesmo o jogo da vida, mas não cessarei de desfrutar cada lance, nem que seja apenas para isto: Tornar inesquecível o instante. A dor da lembrança é também a prova de que algo se tornou eterno em mim. Não esquecerei, talvez seja essa a última forma de fidelidade, quando já não é possível acessar algo e mesmo assim ele continua a povoar o nosso canto com esse estranho sentimento chamado saudade.
 
Sândrio Cândido
 

02/07/2014

os deuses muito cedo se acostumam ao silencio
desfiam indiferentes as contas do tempo

do barro fizeram o nosso corpo
colocaram música em cada orgão
prometeram-nos uma festa inacessível

aqui estamos suplicantes
e não temos mais um prometeu para recorrer

dá-nos o fogo para as candeias interiores
a harmonia de um abraço improvável
a casa alicerçada na eternidade

aqui a vida devora os nossos barcos
padecemos  sempre da esperança de um porto.

26/06/2014

Gavita

"gavita, gavita "
liturgia, cosmo, escarlate
todo o meu ser é um poema não escrito

escrevo em adoração ao cosmo
buscando um deus na manhã clara
ele se deixou perder
estendeu seu corpo no seio da noite

as suas mãos eram amoras
alastrando folhas pelo meu peito deserto

sou o desejo da palavra
a gramática ferida com sede do sentido
vocabulário desfeito em grotas
colméia de gritos
conjunção de todos os ancestrais

esse poema não foi escrito com a minha voz
alguém o fez anteriormente
semeou migalhas na mesa do verbo

alguém, um peregrino, talvez
o homem com uma igreja fincada no ventre
a mulher aberta aos lábios dos deuses

a luz elétrica desceu pelas minhas veias
sangrei lâmpadas na música das horas
eram candeias
o sopro do espírito galgando a linguagem
incenso perfumando a vida

sei que estou debruçado à mesa do mundo
uma estrela sacrificada me habita

comigo se alimentam as aves desesperadas
os rios crescem para dentro do poema
inaugura os sinos
enquanto os círios engravidam a noite

deus respira o mundo pelas narinas dos místicos
a noite é própria para o esposo
estranha liturgia tem a lua
estendendo os cabelos sobre o sexo do amantes

os jardins se formam nos úteros enamorados
se tornam azeite na esperança da lâmpada
o poema brota no corpo anoitecido

trago o cosmo sustentando por uma flauta.

24/05/2014

Aquela mulher atravessa o meu silêncio

aquela mulher atravessa o meu silêncio
uma espécie de corredeira enforcada
tem os olhos tristes

a cabeça fria
os cabelos despidos de toda sensualidade


debaixo da túnica lhe envolve um arame 
muito tempo estancado no rosto 
poços soterrados no corpo 
mãos flácidas 
os joelhos marcados pela espera de deus

eu a amo de uma forma intensa
em longos invernos estamos sentados 

contemplando o crepúsculo domar os sonhos
fiando cobertores aos filhos abortados 
lavando o quarto para o menino dos lírios

com ela atravessei o silêncio da esperança
enquanto a poesia esqueceu de nos visitar
deixando infértil os nossos olhos

ficamos incapazes de gestar as chuvas
embora persistíssemos no gosto das goiabas


tínhamos um peixe nadando no peito
a roseira alastrando na garganta
vertendo coágulos de luz
estranha gruta sorvendo a palavra

estávamos juntos quando ela foi devorada

as vezes eu ouço os seus gemidos
enquanto os cactos brotam na linguagem 

não há mistério
apenas a vida fechada em ataúdes
a noite devorando o pensamento 


com ela aprendi a arte do  inútil 
demorar as mãos no cansaço da lavoura
ser os grãos posto na terra
deixar se fecundar pelo sopro do espírito 
existir em perpétuo estado de espanto 

fazer uma prece aos frutos invisíveis:

dá-me um pouco do teu sabor             
qualquer coisa para confundir a carne 

um pouco de beleza para devorar as sombras

dentes altos sobre os telhados 

uma morada no interior dos oceanos
alguma escada apontando ao infinito.

Sândrio Cândido


07/02/2014

anotações cotidianas ( I)

trago o horizonte diluído nas brumas grafadas em meus olhos- só tenho sonhos para oferecer de alimento.

Aqui na rua de casa as árvores estão floridas, faz muito calor, mas as árvores resistem esplendidas, parecendo desafiar o cinza da cidade.

 Essa semana tomei chuva quando voltava da biblioteca e trazia nas mãos o livro, o amor no tempos do cólera, era previsão, porque o amor é uma tempestade afagando os corações.

Minha prima teve uma filha linda, dá gosto de ver, porque as duas juntas parecem perder se em um tempo diferente, um tempo de epifanias, quando nem mesmo tempo há, somente a doce presença disto que chamam amor. Eu sinto que ela aprendeu o significado da vida, tão simples, um gesto apenas.

Ando Muito saudoso estes últimos dias, pior é que não tenho saudades de algo que foi, tenho saudades mesmo é daquilo que ficou na promessa.

Olho a árvore florida lá na rua e penso: Só tenho sonhos para ofertar, mas em cada sonho eu caminho junto aos meus amigos, de mãos dadas, em busca do abrigo. Sou um homem solitário, mas existo para ser oferta  aos meus amigos.
 
Sandrio Cândido

05/02/2014

sobre palavras e mangabas

(foto: Artur Corumba, Flickr/ CC BY-NC-AS 2.0)
 

quando eu era criança gostava muito de comer mangaba - é uma fruta que dá entre os eucaliptos no interior de Minas Gerais- o sabor doce, a água escorrendo por entre os dedos, aquela coisa infantil de ficar horas procurando as frutas caídas em noites interiores. não era apenas as mangabas, mas todo o ritual que havia nelas.

hoje fiquei pensando que escrever tem um pouco disto: esperar que a fruta caia durante a noite, demorar horas buscando no chão a fruta boa, uma procura pelas coisas inúteis, pelos pequenos prazeres, como degustar uma mangaba ou uma manga rosa dependurada no galho mais alto.

assim como as mangabas, há palavras machucadas, que não cabem no poema, mas que ficam lá forrando o chão, até se transformar em adubo, para fazer brotar outros árvores cheinhos de palavras.

eu ainda sou aquela criança catando mangabas só para tentar descobrir alguma beleza nas chapadas tristes que chamo de vida.
 
Sandrio Cândido

25/11/2013

o peito
uma morada de maribondos
algo assim

inútil desenfaixar o tempo
não há muito a buscar dentro da névoa
o amor talvez possa acender a criança

tão distante os olhos
náufragos mudos em uma esperança
poluídos pelo horizonte
monturo dos séculos
folhas verdes cobertas por teias de aranha

não sei porque habito o mundo
nada é tão singelo como ouvir a manhã
quando os pássaros ferem o silêncio
com as suas gargantas irmanadas aos deuses

estive sempre em estado de parto
grávido das silabas
estou farto de parir palavras

é inútil a vida, mas
ainda insisto no cultivo das roseiras
escavo barcas no centro da morte.

Sandrio Cândido 

03/07/2013

vocação

eu te chamei quando estava debaixo da videira
estavam verdes as pastagens
os rios iam e viam pelos nossos corpos
tudo era belo.

hoje as chuvas cessaram
a noite desceu aos teus olhos enclausurados
retirei as vestes da tua oração
agora é possível olhar as cinzas
resto do paraíso.

eu sei o que tentas dizer com este teu grito,
é muito frio onde tu repousa a cabeça
o teu corpo rasgado clama pelas minhas mãos
ninguém compreendeu as tuas silabas feridas.

eu te chamei para isto,
porque o machado precisa de galhos
e tu estavas por se podado
porque desde antes tu foste a oferenda necessária.

quando as figueiras ainda cresciam
e os sinos costuravam o tempo dos peregrinos
eu te chamei para seres um bambu
por onde escorreriam as minhas lágrimas.

sandrio cândido