11 de dez de 2015

As crianças incandescentes

"Através do teu coração 
passou um barco
Que não pára de seguir sem
ti o seu caminho" 

Sophia de Mello Breyner


dói-me no coração as ruínas da infância
machado beijando o tronco
facão aconchegando os ramos
os primeiros cortes

os dedos machucados teimam em seguir

debaixo do tempo crianças incandescentes gritam
adormecidas na esperança de uma salvação
favos de luz perdidos nos escombros

em busco da flor soterrada nos espelhos
desço aos monturos,
levo em mãos uma lampada desfigurada

é noite por dentro do pensamento
paisagem alguma consegue perdurar
ainda não sei  perdoar o tempo

aqui estou
errante no século,
longo é o trajeto a desnudar

visto-me com a roupa da insônia 
faço do silêncio um barco

filho da época,
nado em busca de um porto
estou a margem  de um corpo ausente

espero as mãos desenfaixarem a boca 
a carne capaz de rasgar a alma.

Sândrio Cândido



17 de nov de 2015

para Júnia Fugimoto  

mamãe, papai,
que saudade é essa que levo dentro de mim?

bendita seja a voz das lavadeiras
lá no fundo do cansanção
rio pequeno grudado no peito
sol quente, lapas grandes
a gente batia as roupas antigas
sem saber que estávamos a lavar o coração

Jequitinhonha, fanado, cansanção
cheiro gostoso de biscoito de goma
acarajé sobre a mesa
café quentinho antes do amanhecer
frango caipira, canjiquinha
chá de amendoim e farofa de andu

canoa velha canoa
traz seus remos outra vez
vem mim ajudar atravessar esse mundão

pra pegar os passarinhos selvagens
armei arapuca na linguagem
trancei palavra por palavra
gastei  a mata de silabas
tragadas pelo meu pensamento
depois deitei debaixo das cagaiteiras
fiquei ouvindo o sabiá
fiz um ninho  na minha garganta
pra aconchegar as andorinhas
casa pequeninha é a que o João de barro
fez dentro do meu coração

garricha não se pode desmanchar a casa
sete anos de maldição
igual quando não tapamos os santos
é tanta coisa neste mundo meu São João
livrai-nos Deus de ficar sem lágrima
quem dera fosse poesia capaz
de devolver -nos o perdão

roça de milho e abóbora
lava mãe, capina pai, borda vovó
folia de reis tá quase chegando
só não esqueçam de olhar a rodagem
pode ser amanhã divagarzinho
fumaça sujando o telhado
ciranda de comadres
compadres fumando cigarro de palha
viola descampando o tempo
feijão no fogão de lenha

bendito seja o rosário
nossa senhora dos homens pretos
não nos deixe faltar o tutu
menina preta do sertão
cá pra nós, flor de laranjeira é tudo
goiaba com  maracujá
saudade deslinhando o peito

a gente não é triste por natureza
é que nascemos com os olhos bestaiados
pelo orvalho que levamos adentro.

Sândrio Cândido


emprestei minha voz para a solidão
andei quilômetros por dentro de mim
quando criança recordo
comia as goiabas com sementes
então perguntava a mamãe
-vai nascer uma árvore dentro de mim?-
ela respondia um sim bonito
com cheiro de mango amadurecendo,
tentei por anos ver essa goiabeira
ainda hoje escrevo buscando
as sementes perdidas aqui dentro.


Sândrio Cândido 

30 de out de 2015

orvalho sobre terra seca

Para  Marcos Paulo ( pequeno príncipe) Kika e Rogério, com carinho 

nascer é uma experiência do coração, uma experiência da beleza. nascemos todos os dias, dizem alguns. sem dúvida o ciclo da vida é um nascer e morrer, tudo pode ser uma metáfora destes dois momentos únicos na existência humana. breve como um raio de luz, grande como o universo! para algumas pessoas o nascimento é uma travessia, uma luta, uma conquista. é sobre um de estes nascimentos que desejo escrever agora.

esperamos tanto pela tua presença! agora o teu sorriso diz-me que valeu a pena. orvalho sobre terra seca, o teu sorriso, sol desabitando a madrugada. nasceste antes, pequeno príncipe, meu pretinho, nasceste bem antes do dia em que  vieste ao mundo, nasceste no coração ( e foram tantos)  a esperar ansioso e com medo. sim, havia medo, o medo de que não viesse. o medo de ocorrer o mesmo que havia passado antes, no entanto, havia a confiança.

o sofrimento, talvez não tenha sido sofrimento, quando se espera uma flor, não importa o suor do trabalho, quando sabemos que estamos a cuidar de uma vida, não importa o tamanho da dor. vieste antes pequeno guerreiro, eu pude ver que tu já estava presente nos olhos da minha irmã deitada sobre aquela cama. ali pude compreender o que é o amor- se bem que já tive várias visitas deste sentimento em minha vida- pude compreender a fragilidade e a grandeza do amor.
 
o amor é uma espera ansiosa, é um cuidar sem saber das certezas, é um ser para o outro, é um abandonar-se pela alegria, pela vida do outro. grande demais, imenso demais, parece, entretanto, em alguns momentos da vida nos é permitido contemplar isso de cerca. o amor também  é sacrifício, algumas vezes, mas sem esse sacrifício que feia a existência, diria um filósofo, que feio uma vida onde não tenha existido a luta, o cansaço, por amor. sem dúvida o amor é muito mais coisas, entretanto, naquele dia, nos olhos da minha irmã, pequeno guerreiro, pude ver o sacrifício, mas também a beleza de estar a espera de uma vida.

havia amor, muito amor nos olhos da minha irmã e do meu cunhado.  naquele corpo debruçado noite e dia na cama, levando dentro de si aquela vida que esperávamos ansiosos. como desejamos  o  passar o tempo para vê-lo. havia esperança e fé. eu que já havia presenciado tantos  discursos,  naquele dia, nos olhos da minha irmã,  pude testemunhar o amor, a fé, a confiança, a esperança.
 
guerreiro, pretinho, príncipe, são tantos os nomes oferecidos a ti, entretanto, o que tu ofereceste a nossa família é maior, ofereceste novamente a alegria de saber que é possível vencer, que é possível alegrar-se depois da dor, que as flores também nascem nas rachaduras, a certeza de que o amor é capaz de suportar os grandes limites da vida humana. ofereceste chuva para dias quentes, flores para um jardim em inverno, orvalho para terra seca. ofereceste esse teu sorriso- que eu ainda não conheço pessoalmente- e dentro do teu sorriso a alegria de saber que a vida venceu, que o amor venceu.  
 
quando nasceu a tua prima, Ana Julia, pude escrever no mesmo dia que o mundo já não era o mesmo, pois havia nascido ela. contigo tive que esperar em silêncio, tive que compreender toda a trajetória da minha irmã, tive que ir sentindo os espaços de alegria que foste abrindo em nossa família e principalmente no coração da Kika e do Rogério. foste para mim uma oração, sim pequeno príncipe,   tu é uma oração, um encontro entre a beleza de esperar e o profundo de amar.

agora que as palavras despertam em mim e sentindo a alegria de poder ser o teu tio, também aqui as escrevo. é um presente para a nossa vida, para a minha vida. hoje, quando sentado pensava na existência de Deus, lembrei de ti e da minha irmã. pois nestes momentos únicos, em que a misericórdia e o amor são mais fortes que a dor, perco as palavras e em silêncio sinto que habito a vida e habitando a vida descubro um mistério que não explico e diante dele apenas faço uma prece. muito obrigado ao sagrado, muito obrigado " pequeno príncipe". não tenho dúvida de que você, a Ana Julia são presentes para a minha vida e para a nossa Família. Bem vindos a vida, esperamos por vocês, obrigado por nascer.

Sândrio Cândido


 
 

28 de out de 2015

quando o sol dobra os olhos
e as frutas começam a cair

coloco-me diante de ti
com a linguagem ajoelhada
e as mãos em silencio

entro na beleza
regresso ao centro do mundo
afago a solidão

habito em prece um coração.

Sândrio Cândido

13 de out de 2015

Íamos

de um lado a outro do mundo.
na certeza de possuir em mãos o segredo
das maças. se ainda houvesse maças
se ainda houvesse a mão
para descer vagarosamente a noite
e afundar
na pulsação firme da vida
até encontrar um último lampejo.
algo úmido, único,
capaz de saciar a sede intransitável.
estranha  a solidão dos místicos
deste século,
sem homens
sem deuses
sem desertos
sem uma verdade por apoiar
nem alguém por encontrar.
está apenas a polpa
e por dentro não existe nada.  
feitos de paisagens,  estradas , oceanos
e de tantos caminhos...
já não são,
já não somos
senão isto:  
inabitados, inacabados,
herdeiros da grande tarefa
destecer o agasalho que serviu
por tantos anos,
prolongar a agonia do outono.

Sândrio Cândido

11 de out de 2015

quando acabou a festa
a música se agasalhou no silencio

enorme é a solidão das violas!
vive na esperança de haver mãos
que as queiram dedilhar...

todo coração é uma ladainha selvagem
e a memória um rosário de monturos!

quando o sagrado fraturou-se
a transcendência ficou sem refúgio
assim nasceu a beleza,
para ser o ventre do vento
soprado desde outra praia.

toda alma sustenta um córrego
capaz de umedecer as horas
desertadas no coração

e os olhos são uma grota
todos esperam um  encontro
para esvaziar o vazio
e suspender  o tempo.

Sândrio Cândido

7 de out de 2015

me esqueci aos poucos de mim
estou perdido
estou um mar sem cais

atravesso a rua
o deserto
a vida

as calçadas fendidas chorando
o sangue escorrendo entre as brechas

alguém diz:
não há flores em agosto.
maio é o melhor mês do ano
é quando as laranjeiras estão carregadas

agosto é o contrário
nenhuma paciência para o futuro
aroeiras desfolhadas
os cabelos do inverno caindo

enorme é aperto no peito
a vida é doença incurável
meus mortos estão despidos de eternidade

( toda a vida em adoração a beleza
e nunca fui capaz de alcançar seus altares)

falta algo
não é tanto o excesso de vazio
é esse copo emborcado
a espera do café nunca passado no coador

é essa respiração alternada
entre uma canção do madre deus
e o silencio
de um barco naufragado

tudo é muito pouco para ser nada!

Sândrio Cândido
eu não te escuto
                                                     

                                                        vem  

                                                         vem

                                          adurma em mim a poeira

                                                      te extraño

                                                       te extraño

                                                             .
                                                             .
                                                             .
                                                             .
                                                             .
                                                             .
                                                             .

                                      e não sei frutificar-me longe de ti.

Sândrio Cândido

6 de out de 2015

Caminar desde el corazón

 
 
"Caminante no hay camino, se hace camino al andar", así escribe el poeta Antonio Machado. Sólo hoy, reconozco la verdad  contenida en esa frase.  El camino no es sólo la ruta, la calle, el trayecto recorrido con los pies,  sino que también es el trayecto recorrido con el corazón. Un viaje es siempre un hecho del espíritu. Luján fue una experiencia del corazón, del espíritu, de la capacidad que tenemos cuando  la fuerza del cuerpo ya no da más y ,entonces, las motivaciones espirituales y aquéllas que vienen desde el corazón son esenciales para seguir adelante. 
 
 
En primer lugar, el miedo y el frío,  realidad que empezó a hacerse más fuerte, Estoy acá, tengo muchos kilómetros por avanzar y no sé por qué estoy. Fue así que empecé la caminata, yo creía que estaba motivado, pero, desde un primer momento, ya supe que la realidad era otra. Estaba dispuesto, pero esas motivaciones no eran suficientes para andar tanto camino. Había que tener algo más allá. Entre oraciones; la letanía de la Virgen María,  la oración de Charles de Foucauld, fue que busqué esa motivación. No podía ser apenas una consecuencia de lo físico,  había que tener algo  más. Para mí caminar era un desafío y me propuse vivirlo como una ofrenda por las intenciones que estaba cargando en el bolsillo y en el corazón, me propuse vivirla como si fuera el camino de la vida. 
 
El primer gran momento fue cuando mi hermano Leandro y Oscar quedaron a la espera de mí, avanzamos algunos kilómetros juntos y mientras tanto, yo pensaba en cómo es importante, a veces, disminuir el ritmo y buscar al otro.  En seguida, el encuentro con la multitud, los muchos peregrinos, igual a nosotros dispuestos a caminar; no estábamos solos, otros caminaban con nosotros, aunque no los conociéramos, ni habláramos con ellos.También ellos hacían el doble camino: el recorrido de la ruta y el trayecto del corazón. El camino de la vida es un trayecto donde muchos pasan, uno se quedan, otros avanzan con nosotros,  en silencio, con añoranza.  Algunos kilómetros adelante volví a caminar solo, mientras oraba el rosario por las intenciones que me habían pedido algunas personas. Luego ,más adelante ,me junté con Leandro y Elmer y con ellos recorrí más de la mitad del camino.  Mientras tanto, una amiga , junto a su familia, enviaba mensajes de motivación. Nosotros orábamos, charlábamos y, a veces, nos quedábamos en  silencio, pero era el silencio de quien estaba buscando el porqué de seguir caminando. 
 
La primera parada  estuvo espectacular, el cuerpo todavía estaba bueno para seguir adelante; la segunda parada, también. En ese momento, conocimos a Diego, un chico que empezó a avanzar con nosotros y con quien compartimos mucho. A veces, en medio del camino, el Señor nos regala otras formas de comprender el mundo y caminar, para que no caer  en la tentación de creer que  nuestra visión del mundo es la única, es la mejor.  En la última parada, un abrazo de una de las personas que estaba en el equipo de apoyo, una motivación para no quedarse allí ¡Cómo se hace importante a veces un pequeño gesto para seguir adelante!  Yo no aguantaba más, pero la mente no cedía, quería seguir luchando y caminando… Logré seguir con los tres algunos kilómetros. Después.... no más. 
 
Los últimos tramos fueran los más difíciles para mí,  quedé solo, pues no logré seguir el ritmo de mis compañeros y empecé a perder las motivaciones. A lo mejor, logré profundizar las motivaciones. Muchas cosas pasaban en mi cabeza, mientras las piernas y los pies ya iban dejando de moverse.Entonces  empecé a caminar con el corazón, con la fuerza del espíritu.  En ese momento, la fe y la amistad me dieron la seguridad de que iba a seguir. Estaba solo físicamente; en medio de la multitud que caminaba, yo me sentía solo.  La desesperación era grande. Saqué el rosario y empecé a orar.Ya no sabía cuál misterio estaba orando, pero seguía orando y creo que fue eso lo que me hizo marchar. Entre un misterio y otro, pensaba en esa amiga, en su familia, en mi familia, en el Instituto, en los hermanos que iban adelante. 
 

Entonces , leía los mensajes que me había llegado al celular, y la fuerza lograba que hiciera algunos pasos más. El primer puente, el segundo puente, lagrimas de miedo y desespero, pero también de emoción por haber recorrido un trayecto y estar cerca del objetivo.  Cuando faltaba dos cuadras , aumentaron  las lágrimas. Recuerdo que un señor me abrazó y me dijo: "Llegaste, llegaste, algunos metros más, sólo algunos más....". Recuerdo que para subir la escalera fue doloroso, tuve que agarrarme a la pared,  cuando entré en la Iglesia y miré la Imagen ,las lágrimas brotaban como un manantial. En un video, quedaron grabados los últimos pasos y el llanto por la gracia  de haber llegad. Al mirarlo hoy, sé que valió la pena.  
 


                                 
 
Fue una experiencia única de fe y amistad. Una experiência de cómo nuestros límites son pequeños cuando confiamos, cuando nos dejamos conducir por el espíritu, cuando nos sentimos queridos por Dios y por aquéllos que Él nos regaló como amigos, como hermanos, como comunidad. Fue una experiencia de la fuerza que tenemos en el corazón. Cumplí un desafío . En el camino hacia Luján, confirmé el trayecto hecho en el noviciado este año, un trayecto donde cada paso es un grado enorme hacia el objetivo.
 
 
 
 
Gracias a Luján tuve la oportunidad única de poder disfrutar no sólo de  una peregrinación, sino también la certeza de tener en la fe una experiencia de vida . Además , pude encontrar en la propia vida, en el camino, los signos que el Señor nos va dejando. Gracias a Luján logré descubrir la fuerza de la amistad y de la comunidad religiosa y de mis hermanos. Gracias a Argentina  tuve una  experiencia única en mi vida. Gracias a Argentina porque me dio la bella posibilidad  de caminar con el corazón, con el amor… Que  Nuestra Señora de Luján pueda seguir caminando con nosotros. 
 
 
 

Sândrio Cândido