30 de jul de 2015


Diferente de quando éramos crianças

trepar na árvore hoje é complicado.

Não temos mais os pés rápidos ,

nem as mãos virgens

tão pouco olhos acostumados ao alto. 

O que temos é o coração telúrico,

olhos groteados em funduras

veias degradando o corpo

córregos  secando.

Sobretudo o nosso corpo.

Mudou tanto a química do corpo

Já não possui a destreza infantil

desaprendeu o mapear correntezas

perdeu a língua da inocência.

A linguagem normatizada

pela erótica gramática dos suores

em espasmos e sussurros,

vozes desnudas ,

sexos entrelaçados ao caos,

é a que falamos agora.

Escrevemos na pele do gozo

algo capaz de devolver a tabula

roubada pelos deuses iluministas.  

Com gemidos ensombrecidos

coração domado no êxtase,

por baixo tonteando os olhos  

em solitárias posições,

buscamos um guarda-solidão

televisionamos o mergulho

já não naufragamos

entretanto,  irônico destino

tão pouco mergulhamos!

28 de jul de 2015

Memória

a tua morte é o que mais preciso
hoje, não amanhã, apenas hoje.
que se despregue do meu corpo!
deixe-me desnudo na rua
não se atreva a oferecer-me um agasalho,
não estenda as tuas mãos;
preciso existir sozinho
sem a tua estúpida companhia!
por favor, te rogo:
_ dá-me a liberdade da tua morte!
se queres permanecer, permaneça,
mas não me visite outra vez.
não quero as suas brincadeiras
os seus rios, os seus cantos
nem mesmo as goiabas maduras
as mangas, as amoras,
quero a vida, com toda a contradição.
estranho, não pensei um dia pedir-lhe isto
antes de hoje, antes de agora
antes de habitar os teus negros olhos
e sentir-me perdido,
por isso necessito da tua morte.
o teu grito de partida será para mim um alívio
última oportunidade
para os meus passos inaugurarem
alguma chegada.


Sândrio Cândido

31 de mar de 2015

Sob a forma muda

caminho muito além dos rastros
danço em combustão
trago na boca um poema

em mim perdura a colheita 
as mãos crescendo sobre o vazio  
adiando o  uso da veste

os jardins possuídos pela neve
comungo no silencio
meu corpo em prece espera 

faço do instante o epitáfio
imensa sacralidade é a borboleta
pousada em meus ombros

trago na garganta um barco naufrago 
meus braços cansados 
estou desfalecido
junto ao  cardume de tempo

muito distante está o farol
não o vejo
mas deve haver farol

enquanto nado
uma ilha cresce em meu quarto
resvalo nas pedras
primitiva forma de habitar o mundo

busco a luz  
na hora escura da noite
sou o devir
devo ser o olho transfigurado 
sob a pele do monge

trago paisagens não descobertas
em mim sobrevive
de maneira velada pelo medo
o desejo de escapar

os homens
(todos desceram a praia
ao supermercado
encheram seus carros
suas bolsas,
arrumaram novos dentes
celulares conectados com marte)

desejo o todo do mundo
esse ainda não é o meu  mundo
nunca o terei em mãos 
saudade do encontro adiado 

mendigando nos semáforo
crianças sorrindo
imensa graça não atravessar o tempo

os  jovens se beijam
nenhuma estrela na noite
e eles se beijam
amam-se sob a calçada fria
a angústia me devolve ao tempo

sinto em meus lábios o sangue
de um corpo atracado
concreto erguido entre árvores
lutando para desprender-se

alguém saberá decifrar seu grito?

Sândrio Cândido

1 de out de 2014

Desolação

depois do nosso século
nenhuma videira crescerá na morte
as flautas incendiadas
delicada beleza

últimos jardineiros
estando eles cansados de suportar
o pesado fardo do lírio
partirão em busca de refúgio

deles lembraremos com tristeza
quando ouvirmos tocar
outra sonata
então será o tempo do inverno

decerto é nossa última paisagem
nas colinas, nos montes
os pastores perdidos
as mãos suplicando balanços

ovelhas exiladas
desgarradas dos pastos eternos
sozinhas vagando
pelos enormes bosques escuros

quando descer o anjo
soando a trombeta
tentando recompor os córregos
não saberemos crer nele

demasiado distantes das fontes
imersos no deserto
a vida aos poucos esvaída
tantos monturos

é esse nosso último salmo
costurado em laranjas apodrecidas
recitado por monges embriagados
telúrica perspectiva do reino

onde ficou a nascente?

dela lembraremos
com a mesma saudade dos outros
aqueles que choraram
junto aos rios da babilônia

essa é a nossa foz
como esquecer o leito percorrido
até alcançar este mar?

ainda não estamos preparados
cedo chegamos ao oceano
canoas frágeis

insistimos em voltar as corredeiras
sabemos ser impossível

é essa a nossa sina
agora só temos as nossas mãos
nenhum caminho
mesmo os remos foram perdidos

ainda nos cabe a tarefa
de inventar por dentro do afogamento
outra rota possível

trazemos a memória da fonte
ainda o estranho desejo

regressar ao principio do rio.

Sândrio Cândido

15 de set de 2014

Ailton

foto: Ailton Volpato
 
 
 


ouve- assim cantam as aves, é setembro
escrever para habitar o vazio
antes de tudo, o mesmo, este que nos habita
sem nenhuma permissão 
o tempo transforma todos os outonos
amadurece a polpa da vida-
as vezes nos falta a chuva
aos poucos apodrecemos junto as videiras
a música de deus doma o nosso corpo
queda de joelhos a criança em nós afogado 
aprendemos cedo o tato da palavra
frágil instrumento
nela assopramos levemente
tentando romper a noite
galgar os degraus ao parto da claridade
acontecer por dentro do azul,
a palavra rasgada
trabalhada pelas mãos em comunhão
regando a rosa-
fizemos de nós peregrinos
talvez nem isto sejamos no amanhã
difícil desvelar a alma
outro é o oficio do século
é tempo de possuir um corpo
nunca foi tão forte isto
temos um corpo meu deus- por que?
algumas perguntas devem cessar
sem obter nenhuma resposta
estamos tateando o mistério do espírito
pairando sobre as águas
no eterno gênesis- devir de Heráclito-
apodreceu há muito a mesa do banquete
ficamos a espera das migalhas
lavando com poemas os pés do mensageiro
é sobre isto- fazer o reboco
e nunca cobrir completamente a cratera
o poema é inútil para dizer o silêncio
é esse o nosso destino
desde a nossa primeira solidão
é este o nosso único movimento
capaz de nos fazer comungar da dança.

Sândrio Cândido



19 de jul de 2014

Paisagem inabitável

Não aprendi dizer adeus, diz uma canção da minha infância, daquelas que fazem parte da memória sentimental. Lembro-me do papai com o seu radinho de pilha, em um Cansanção ainda sem luz elétrica, ao redor da lamparina cheirando a querosene e aquela voz irritante cantando. Só a frase me ficou, de toda a música, não gosto mais da dupla, mas a memória sentimental não escolhe pelos nossos gostos, ela parece ter vida própria.
 
É verdade! Eu não aprendi como dizer adeus, toda vez é a mesma coisa; o silêncio de um abraço e o aperto nos olhos, como se todo um rio estivesse contido nas pálpebras. O problema não é tanto o adeus, mas o significado dele. Como esquecer as manhãs da minha infância, quando eu e minhas irmãs saímos em busca das mangabas e dos pequis. Impossível esquecer os nossos jogos de futebol, quando a poeira era mais intensa do que os gols. É do mesmo jeito impossível esquecer as partidas de queimada no ponto de ônibus. Tudo isto é tão bobo, se fosse uma fogueira, seria apenas as brasas, entretanto, é isto o que aquece as minhas noites. 
 
Hoje há poeira ainda, mas não é mais de uma partida de futebol, é o jogo da vida e neste eu desconfio que esteja perdendo. A vida não perde e nem empata, ele quer sempre a vitória. É isto o que dói ao dizer Adeus, saber que tudo é breve e acaba um dia. O que dói é esse buraco aberto no peito. Para lá eu jogo tudo aquilo que não posso mais acessar, mas que fica impregnado em minha pele. A vida é uma coleção de retratos jamais revelados. A fotografia interior não cabe no papel. 

Não aprenderei dizer Adeus, mas saberei: Aquilo vivenciado por mim é de uma beleza tão grande que vale o sacrifício. Talvez eu perca mesmo o jogo da vida, mas não cessarei de desfrutar cada lance, nem que seja apenas para isto: Tornar inesquecível o instante. A dor da lembrança é também a prova de que algo se tornou eterno em mim. Não esquecerei, talvez seja essa a última forma de fidelidade, quando já não é possível acessar algo e mesmo assim ele continua a povoar o nosso canto com esse estranho sentimento chamado saudade.
 
Sândrio Cândido
 

2 de jul de 2014

os deuses muito cedo se acostumam ao silencio
desfiam indiferentes as contas do tempo

do barro fizeram o nosso corpo
colocaram música em cada orgão
prometeram-nos uma festa inacessível

aqui estamos suplicantes
e não temos mais um prometeu para recorrer

dá-nos o fogo para as candeias interiores
a harmonia de um abraço improvável
a casa alicerçada na eternidade

aqui a vida devora os nossos barcos
padecemos  sempre da esperança de um porto.

26 de jun de 2014

Gavita

"gavita, gavita "
liturgia, cosmo, escarlate
todo o meu ser é um poema não escrito

escrevo em adoração ao cosmo
buscando um deus na manhã clara
ele se deixou perder
estendeu seu corpo no seio da noite

as suas mãos eram amoras
alastrando folhas pelo meu peito deserto

sou o desejo da palavra
a gramática ferida com sede do sentido
vocabulário desfeito em grotas
colméia de gritos
conjunção de todos os ancestrais

esse poema não foi escrito com a minha voz
alguém o fez anteriormente
semeou migalhas na mesa do verbo

alguém, um peregrino, talvez
o homem com uma igreja fincada no ventre
a mulher aberta aos lábios dos deuses

a luz elétrica desceu pelas minhas veias
sangrei lâmpadas na música das horas
eram candeias
o sopro do espírito galgando a linguagem
incenso perfumando a vida

sei que estou debruçado à mesa do mundo
uma estrela sacrificada me habita

comigo se alimentam as aves desesperadas
os rios crescem para dentro do poema
inaugura os sinos
enquanto os círios engravidam a noite

deus respira o mundo pelas narinas dos místicos
a noite é própria para o esposo
estranha liturgia tem a lua
estendendo os cabelos sobre o sexo do amantes

os jardins se formam nos úteros enamorados
se tornam azeite na esperança da lâmpada
o poema brota no corpo anoitecido

trago o cosmo sustentando por uma flauta.

24 de mai de 2014

Aquela mulher atravessa o meu silêncio

aquela mulher atravessa o meu silêncio
uma espécie de corredeira enforcada
tem os olhos tristes

a cabeça fria
os cabelos despidos de toda sensualidade


debaixo da túnica lhe envolve um arame 
muito tempo estancado no rosto 
poços soterrados no corpo 
mãos flácidas 
os joelhos marcados pela espera de deus

eu a amo de uma forma intensa
em longos invernos estamos sentados 

contemplando o crepúsculo domar os sonhos
fiando cobertores aos filhos abortados 
lavando o quarto para o menino dos lírios

com ela atravessei o silêncio da esperança
enquanto a poesia esqueceu de nos visitar
deixando infértil os nossos olhos

ficamos incapazes de gestar as chuvas
embora persistíssemos no gosto das goiabas


tínhamos um peixe nadando no peito
a roseira alastrando na garganta
vertendo coágulos de luz
estranha gruta sorvendo a palavra

estávamos juntos quando ela foi devorada

as vezes eu ouço os seus gemidos
enquanto os cactos brotam na linguagem 

não há mistério
apenas a vida fechada em ataúdes
a noite devorando o pensamento 


com ela aprendi a arte do  inútil 
demorar as mãos no cansaço da lavoura
ser os grãos posto na terra
deixar se fecundar pelo sopro do espírito 
existir em perpétuo estado de espanto 

fazer uma prece aos frutos invisíveis:

dá-me um pouco do teu sabor             
qualquer coisa para confundir a carne 

um pouco de beleza para devorar as sombras

dentes altos sobre os telhados 

uma morada no interior dos oceanos
alguma escada apontando ao infinito.

Sândrio Cândido


7 de fev de 2014

anotações cotidianas ( I)

trago o horizonte diluído nas brumas grafadas em meus olhos- só tenho sonhos para oferecer de alimento.

Aqui na rua de casa as árvores estão floridas, faz muito calor, mas as árvores resistem esplendidas, parecendo desafiar o cinza da cidade.

 Essa semana tomei chuva quando voltava da biblioteca e trazia nas mãos o livro, o amor no tempos do cólera, era previsão, porque o amor é uma tempestade afagando os corações.

Minha prima teve uma filha linda, dá gosto de ver, porque as duas juntas parecem perder se em um tempo diferente, um tempo de epifanias, quando nem mesmo tempo há, somente a doce presença disto que chamam amor. Eu sinto que ela aprendeu o significado da vida, tão simples, um gesto apenas.

Ando Muito saudoso estes últimos dias, pior é que não tenho saudades de algo que foi, tenho saudades mesmo é daquilo que ficou na promessa.

Olho a árvore florida lá na rua e penso: Só tenho sonhos para ofertar, mas em cada sonho eu caminho junto aos meus amigos, de mãos dadas, em busca do abrigo. Sou um homem solitário, mas existo para ser oferta  aos meus amigos.
 
Sandrio Cândido